domingo, 15 de junho de 2014

Sem Puyol

Tal como o Barcelona, seleção espanhola sofre com a ausência de seu líder

            Na metade do primeiro tempo de Espanha x Holanda, a impressão que se tinha era a de que os campeões da Europa e do mundo massacrariam os comandados de Van Gaal. O velho toque de bola envolvente, que envenena o adversário, estava em Salvador. O controle, o domínio, a clarividência, a sincronia: tudo que consolidou o inebriante estilo da Fúria apareceu naqueles trinta e tantos minutos. Os trinta e tantos anos de Xavi não o impediram de abrir caminhos na defesa oponente. Iniesta, o esteta (talvez “Iniesteta” soe melhor), deixava jorrar sua arte na Fonte Nova. Trabalhando em consonância, jogando um futebol gregário e operário, trocando bolas com a precisão do handebol, os jogadores espanhóis pareciam estar prontos para uma nova aula sobre o conceito de futebol.

            O gol que David Silva perdeu poderia ter estendido a (gostosa) sensação de “déjà vu”, ou mesmo decretado irreversivelmente o triunfo de sua equipe. A derrocada do “tiki-taka” se tornaria, então, uma mentira, e os fracassos recentes – tanto da seleção quanto do Barça, sua versão clubística − seriam relativizados. Mas aí vieram o lançamento cinematográfico de Daley Blind, um mergulho de dublê hollywoodiano executado por Van Persie e a igualdade no placar. Na segunda etapa, falhas sucessivas e clamorosas, muito bem exploradas pela Holanda, aniquilaram a Espanha. Fizeram-na passar por situação vexatória, muito similar à que o Barcelona havia vivenciado na semifinal da Champions League 2012-13, contra o Bayern.

            Agora, a crise de identidade, que já vinha dilacerando pelas beiradas as certezas dos últimos seis anos, está definitivamente instaurada. Fala-se em abandonar o modelo de jogo outrora vitorioso e, para muitos, cativante. Vários analistas apontam, com razão, o envelhecimento da espinha dorsal como uma das causas da queda de rendimento − a contusão do virtuoso Thiago Alcântara, claro, acentuou esse problema. No entanto, a fluidez do jogo espanhol na primeira parte do embate contra os holandeses dava indícios de que o sonho ainda não tinha acabado. Mesmo limitada pela convocação bastante conservadora de Del Bosque, a Espanha mostrou, por mais de meia hora, que ainda podia dar caldo.

            Tanto podia que acabou por entorná-lo. Talvez a equipe tivesse conduzido melhor as coisas se sua retaguarda ainda estivesse sob a batuta de Carles Puyol. O zagueiro se aposentou em maio, devido às lesões que o perseguiram nos últimos dois anos. Os longos períodos de afastamento coincidiram com a decadência do Barcelona e da Fúria, embora esta ainda tenha conseguido vencer a última Eurocopa sem ele. Mas a grotesca atuação frente à Argentina em 2010 – 4x1 para os sul-americanos, dois meses após o êxito na África do Sul −, que não contou com os serviços do beque catalão, já mostrava que o respeitado exército espanhol sentia o baque da ausência de seu general.

            Aliás, nesse amistoso, Reina cometeu, com os pés, erro muito semelhante ao de Casillas na partida de anteontem. Sem Puyol, a defesa da Roja soma a indecisão de Ramos aos apagões de Piqué, o que acaba multiplicando a insegurança do capitão Iker. O produto disso também pôde ser observado na final da Copa das Confederações. E, no Barcelona, a equação é a mesma. Basta dizer que Puyol não esteve presente nas duas acachapantes derrotas (0x4 e 0x3) diante do Bayern em 2013, símbolos do aparente fim de ciclo.

            Portanto, quando se diz que “o time da Espanha é praticamente o mesmo que ganhou a última Copa do Mundo”, a frase camufla o desfalque crucial. Obviamente, há outras razões – a estratégia manjada, o outono da carreira de alguns craques – para a fase tempestuosa pela qual passa a seleção espanhola. Porém, é inegável que a sóbria liderança de Carles Puyol, reconhecida e admirada pelos companheiros, faz falta. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, Barça e Fúria sentiam-se mais protegidos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Kloser": perto demais... do recorde!

Miroslav Klose não jogou a decisão do 3º lugar em 2010. Não podia ou não quis?

             
            Um dos jogos mais descontraídos em Copas do Mundo é o da disputa pela terceira colocação. Já não há mais a sanha de apalpar a taça, nem o perigo de passar um grande vexame. As pernas ficam menos tesas e as mentes, mais frescas. Não é mero fruto do acaso, portanto, a média exata de 4 gols em partidas desse tipo na história dos Mundiais. Artilheiros de algumas edições aproveitaram bem a ocasião, isolando-se no honroso posto ou ampliando a marca. Incluem-se no rol Leônidas da Silva (em 1938, fez 2 de seus 7 gols na decisão do 3º lugar), Fontaine (4 dos 13 em 1958) Eusébio (1 de seus 9 tentos em 66), Lato (1 dos 7 em 74), Schilacci (1 dos 6 em 1990), Suker (1 dos 6 em 1998), Thomas Müller e Forlán (ambos marcaram em 2010).

            Miroslav Klose podia estar nessa lista. Autor de 4 gols na África do Sul, ele desfalcou a Alemanha no duelo com os uruguaios, que, seguindo a regra, teve muitos gols – 3 a 2 para os germânicos. Tivesse entrado em campo, Klose poderia ter alcançado não apenas a artilharia daquela Copa, mas também a posição mais alta do ranking de goleadores de todos os Mundiais. Um gol contra o Uruguai o teria posto ao lado de Ronaldo. Dois o teriam deixado sozinho no topo, com 16. Mas o camisa 11 da Alemanha ficou no banco.

            Segundo consta, a razão da ausência foi uma gripe. Ou dor nas costas, oriunda, disseram os jornais, da batalha contra a Espanha. Buscas no google mostram as duas possibilidades, e nenhuma delas soa convincente o bastante. Afinal, como um centroavante de 32 anos ─ em sua última Copa, presumivelmente −, próximo de um recorde tão cobiçado, pertencente por décadas ao estupendo compatriota Gerd Müller, pode deixar uma gripe estragar tudo? E, se não houve tosse nem coriza (as informações são, como já se disse, imprecisas), por que a dor lombar não o tirara sequer por um minuto do jogo frente aos espanhóis?

            A hipótese que se pretende aventar aqui é a seguinte: Miroslav Klose não desfalcou a Alemanha em seu último compromisso na Copa de 2010 por motivos médicos, mas sim por vontade própria. Teria sido conveniente enfrentar o Uruguai e aproveitar o relaxamento inerente à ocasião para empatar com Ronaldo, talvez superá-lo. “Miro”, no entanto, preferiu – pura especulação – encarar o desafio de se manter competitivo até 2014.

            Caso tenha existido esse ousado plano, vê-se que acabou dando certo. No Brasil, Klose disporá de alguns jogos para bater o Fenômeno. Terá, ainda, a chance de atingir outras marcas importantes, como a de jogador com mais partidas de Copas no currículo: Lothar Matthäus tem 25, Klose pode chegar a 26. Com qualquer mísero gol, terá balançado o fundo do barbante em 4 Copas (2002, 2006, 2010 e 2014), igualando-se, assim, a Pelé e Uwe Seeler, mitos que carimbaram as metas adversárias em 1958, 1962, 1966 e 1970.

            Embora não passe de conjectura, a “autobarração” de Klose revela certa sintonia com suas atitudes ao longo da carreira. Não se trata, portanto, de uma ideia totalmente desprovida de fundamento. À distância, Klose parece ser um cara que não aprecia a vantagem fácil, a glória sem luta. Em 2005, chegou a pedir ao árbitro de Werder Bremen (time que defendia à época) x Arminia Bielefeld que voltasse atrás na marcação de um pênalti a seu favor, dizendo-lhe que o goleiro procurara apenas a bola. Sete anos depois, vestindo as cores da Lazio num jogo contra o Napoli, outro gesto raríssimo nas canchas: depois de um escanteio que resultou em gol, Klose correu em direção ao juiz para lhe confessar o toque de mão. Os atletas napolitanos agradeceram, quase comovidos. O futebol, também.

A conduta do atacante nesses dois episódios encontra ressonância nos versos de “Dieser Weg”, sua canção predileta (“Este caminho não será fácil / Este caminho será tortuoso e difícil / Você não vai estar de acordo com muitos / Mas esta vida oferece muito mais”), e reforça a teoria de que ele renunciou à bandeja com faca e queijo de 2010. Um jogador que conhece tão bem o sentido da relação entre mérito e recompensa pode, sim, sem nenhum autoflagelo, ter exigido de si mesmo um esforço extra, o cumprimento de um pacto secreto. “Você é um jogador mediano, Miroslav”, teria dito ele a si próprio. “Para ultrapassar gênios como ‘Der Bomber’ e o Fenômeno, você precisa merecer mais”.

É claro que isso tudo pode ser uma grande fantasia. Vai ver que a gripe era das brabas, mesmo. Ou que a dor nas costas estava realmente incomodando. Quem sabe as duas coisas juntas. Mas eu prefiro acreditar que Klose não quis fechar a conta em 2010. E que esta vida lhe oferece muito mais para 2014. Boa Copa, Miro!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O preço do desprezo

            Quando um clube brasileiro consegue conquistar o Mundial, muitos têm a impressão de que seu desdém em relação ao campeonato brasileiro do mesmo ano foi um fator decisivo para o triunfo planetário. Vira quase consenso a ideia de que priorizar o torneio da Fifa, abdicando de todo o resto, foi uma estratégia inteligente, muito bem calculada.

Quando, porém, a taça do mundo se desintegra, constata-se que o tão louvado foco de nada adiantou. A concentração absoluta não se revela, no fim das contas, um plano infalível. E, então, o torcedor lamenta todos aqueles meses de amistosos insossos, todas aquelas possibilidades de êxito doméstico jogadas fora.

No caso específico do Atlético Mineiro, derrotado anteontem pelo Raja Casablanca, o vazio do arrependimento é ainda mais profundo e aterrador. Além de não ter experimentado sequer o sabor de ver seu time enfrentar o campeão europeu, o torcedor do Galo ainda precisa lidar com o fato de ter sido o próprio Atlético um dos responsáveis indiretos pela esmagadora performance do Cruzeiro no Brasileirão – afinal, os comandados de Cuca formavam, possivelmente, a única equipe capaz de produzir um embate parelho com o rival na tabela.

Contudo, como se sabe, o Galo não levou a sério a chance de abocanhar um título que, diga-se de passagem, não obtém desde 1971. A festança da Libertadores se estendeu em demasia e, mesmo depois da ressaca, não houve comprometimento com a causa do Brasileirão. Tampouco com a da Copa do Brasil, cujo caneco não figura no currículo atleticano. O sonho do Mundial, equivocadamente, eliminou outras ambições, amaciou pressões.

Marrocos era o oásis depois do desértico segundo semestre. O time estava com crédito até chegar ao vermelho Bayern, que derrotara o Cruzeiro no Mundial de 1976 e, desta vez, sucumbiria diante da verdadeira força de Minas ─ assim pensava a grande massa atleticana. Mas, como vimos, tudo não passou de miragem. Restou a sede de ter vivido mais intensamente um período que, para o vizinho, foi glorioso. 
 

Tradição aziaga 

Antes do Atlético-MG, outros clubes brasileiros já haviam desperdiçado suculentas fatias de suas temporadas em nome de uma frustrante bocada de fim de ano. Abaixo, uma lista de bons times que poderiam ter vencido o Brasileirão em anos nos quais se dedicaram exclusivamente ao Projeto Tóquio, Marrakech etc. 

VASCO – 1998

Tão bom quanto o campeão nacional de 97, o Vasco de 98 poderia, até com certa facilidade, ter se classificado para as quartas-de-final daquele campeonato anterior à era dos pontos corridos. E teria, certamente, avançado mais. A orientação advinda da diretoria, no entanto, era clara: prioridade absoluta para o embate com o Real Madrid. Quanto maior fosse o tempo de preparação, melhor. O décimo lugar se encaixou na proposta, mas o jogo do Vasco não encaixou em Yokohama. 
 

PALMEIRAS – 1999

Pode um time que aplica, no mesmo campeonato, 6 a 0 sobre o Grêmio e 6 a 0 sobre o Botafogo ficar ausente da briga pelo troféu? Pode. Em 1999, o Verdão de Felipão não fez muito esforço para se classificar entre os oito que rumariam para a segunda fase ─ alcançou, como o Vasco do ano anterior, a décima colocação. Assim, pôde ficar 20 dias pensando apenas no Manchester United. Talvez tivesse sido melhor não pensar tanto, já que perdeu para o time de Ferguson e viu o arquirrival se sagrar campeão brasileiro.
 

INTERNACIONAL – 2010

O Inter de Celso Roth estava longe de ser brilhante, mas os outros concorrentes ao título brasileiro de 2010 também não eram. Com o elenco de que dispunha, podia ter lutado pela taça. Mas a esperança de bisar o feito de 2006 obnubilou o ímpeto de vencer no certame caseiro. O Colorado acabou ficando apenas em sétimo no Brasileirão e, no Mundial, fracassou ante o Mazembe. 
 

SANTOS – 2011

Em determinado momento do Brasileirão 2011, os postulantes ao título passaram várias rodadas tropeçando sucessivamente. Nenhuma equipe parecia ter força suficiente para arrancar e se impor na competição. Estivesse um pouco menos inebriado pelo sonho de bater o Barcelona no Mundial, o Santos, munido de Neymar em fase esplêndida, poderia ter brigado pela taça nacional. Acabou sendo massacrado pelo Barça de Guardiola.

domingo, 2 de junho de 2013

Santa em ascensão


            Na era pós-Copa União (depois de 1987, portanto), poucas fatias da federação fora do chamado “eixo Rio-São Paulo” colocaram mais de dois times na Série A. Foram elas Pernambuco (apenas em 93), Minas Gerais (em 93, 98, 2000, 2001, 2008 e 2011), Paraná (dez vezes entre 93 e 2005) e Rio Grande do Sul (de 95 a 2007, excetuando-se 2005). No ano passado e na atual versão do campeonato de elite, as portas desse seleto clubinho têm se mantido trancadas, mas há um aspirante a sócio forçando a entrada. Trata-se de Santa Catarina, estado com um time na Série A de 2013 (Criciúma) e presença maciça na Série B (Avaí, Figueirense, Joinville e Chapecoense).

            No biênio 2003-04, com Figueirense e Criciúma na primeira divisão, e em 2011, com Figueirense e Avaí, o futebol catarinense esteve, aparentemente, num estágio até superior. Não havia, contudo, uma quantidade tão expressiva de representantes na Série B. Em 2012, já eram três, e todos ficaram entre os seis primeiros. Indubitavelmente, um ótimo desempenho. No fim das contas, subiu apenas o Criciúma, mas as rodadas iniciais da Série B 2013 indicam que o número pode aumentar desta vez.

            Mesmo a Chapecoense, advinda da Série C – de onde também emergiram Criciúma e Joinville, em anos recentes – tem conseguido angariar boa pontuação neste começo de certame, o que torna as projeções catarinenses para 2014 muito positivas. Com uma das vagas para a Série A de 2014 teoricamente reservada para o gigante Palmeiras, restam três para sonhos que vêm de todos os cantos de Santa Catarina – norte (Joinville), sul (Criciúma), leste (Avaí e Figueira) e oeste (Chapecoense).

            Tais esperanças não são frutos de devaneios megalômanos. Nas últimas temporadas, os clubes catarinenses têm, esporadicamente, se atrevido a interpretar papéis mais importantes na cena nacional. Os principais atores desse crescimento paulatino são os emblemas da capital, Figueirense e Avaí. O primeiro chegou à final da Copa do Brasil em 2007 e terminou o Brasileiro de 2011 na 7ª posição, depois de ter flertado, e quase se acasalado, com a Libertadores. O rival atingiu a semifinal da Copa do Brasil em 2011, dois anos depois de ter obtido um espantoso 6º lugar no Brasileirão. Não são façanhas tão portentosas quanto a conquista do Criciúma na Copa do Brasil de 1991, mas, diferentemente desta, parecem ligadas a um processo de evolução gradativa. O caso de 91 foi mais particular, resultado da simbiose entre a cidade do carvão e um certo Felipão, que iniciava ali sua trajetória rumo ao posto de rei do mata-mata.

            O futebol barriga-verde vem encorpando de grão em grão, e o campeonato estadual é reflexo disso. Não que a federação catarinense tenha grande mérito em sua organização – muito pelo contrário. Basta lembrar o ridículo vice-campeonato do Figueirense no Catarinão de 2012, após ter faturado ambos os turnos. A competição tem progredido naturalmente por outras razões, entre as quais figuram o equilíbrio e o interesse do público.

            No primoroso blog Futrankings, estudo estatístico de Tomaz Alves aponta o campeonato catarinense como, historicamente, o mais parelho do Brasil. A variedade de campeões sempre foi maior do que em outras praças, o que explica, bem resumidamente, a liderança no meticuloso ranking. De fato, ainda hoje, há sempre cinco equipes – Figueirense, Avaí, Joinville, Criciúma e Chapecoense – que entram no torneio com chances reais de título. Em que outro torneio local isso se observa? Alguém pode mencionar a Bahia, que teve Colo-Colo e Bahia de Feira como campeões recentes. Ou o Espírito Santo, estado em que, após décadas de domínio dividido entre Rio Branco e Desportiva, apareceram novos levantadores de taça, como Aracruz e São Mateus. Esses casos, porém, são bem diferentes, já que envolvem zebras ocasionais ou emergentes desprovidos de tradição. No Catarinão, os componentes do quinteto que está no poder trajam camisas com pesos não muito díspares entre si e compartilham 41 dos últimos 42 troféus disputados – 4 erguidos pela Chapecoense, 7 pelo Avaí, 9 pelo Criciúma, 9 pelo Figueirense e 12 pelo Joinville. O único intruso desse período foi o Brusque, vencedor de 1992.

            Se metade dos participantes de um estadual tem condições de ganhá-lo (10 clubes jogam o Catarinão), a atração por ele exercida tenderá a ser maior do que a de outro campeonato cujos verdadeiros concorrentes ao título não passem de 20% do total. Assim, embora não tenha se notabilizado por grande entusiasmo, o estadual de Santa Catarina contou, em 2013, com média de público superior à do carioca, à do gaúcho e à do paranaense, por exemplo.

            O ambiente competitivo do Catarinão o afasta um pouco da feição decadente que os regionais assumem Brasil afora. E, de certa forma, ajuda a azeitar os times da casa com vistas aos embates nacionais. É claro que o campeonato doméstico poderia ser mais próspero e contagiante se não houvesse tanta gente em Santa Catarina torcendo para times de outros estados. Esse é um problema crônico do futebol barriga-verde. Pesquisa encomendada pela Revista Placar em 1983 já dizia que “entre os 61% dos habitantes adultos das regiões urbanas de Santa Catarina que se interessam por futebol, nada menos que 41% não torcem  para nenhum clube do estado – a porcentagem mais alta entre todas as demais regiões do país”.

            O visual de estádios como o Heriberto Hülse, a Arena Joinville e o Orlando Scarpelli em dia de jogo e os bem-sucedidos programas de sócio-torcedor do Joinville e da Chapecoense parecem sinalizar que existe um movimento no sentido contrário. Estariam os catarinenses mais apegados aos clubes de sua terra do que há trinta anos? Ou ainda os enxergam como simpáticos “segundos times”? Levantamentos feitos nos últimos anos mostram que o apelo dos grandes centros mantém-se bem maior que o das forças caseiras. No entanto, deve-se considerar que pesquisas sobre torcida não têm sido o ponto forte dos institutos especializados. Dá para desconfiar.

            No momento em que este texto chega ao seu derradeiro parágrafo, termina o jogo em São Caetano do Sul: Azulão 0x1 Chapecoense. O triunfo fora de casa nesta noite de sábado deixa o Índio na vice-liderança da Série B, após três rodadas. Todos os outros membros do G-4 são, neste momento, de Santa Catarina – o Figueirense encabeça a tabela, o Avaí ocupa o terceiro posto e o Joinville completa o grupo. Se o atual quadro se conservasse intacto até dezembro – quase impossível −, a Série A de 2014 reeditaria 1979, quando Criciúma, Joinville, Figueirense, Chapecoense e Avaí estiveram na primeira divisão, à época disputada por quase uma centena de agremiações. Pôr cinco clubes entre vinte é outro papo. Mas existe, sim, a possibilidade de Santa Catarina ser, na próxima temporada, o único estado, além de Rio e São Paulo, com mais de dois representantes na Série A.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Maior que Mourinho

 Técnico português agride o futebol mundial ao privá-lo das exibições de  Kaká, um dos grandes jogadores deste século
 
            Às vésperas do mais aguardado embate das oitavas-de-final da Champions League (Real Madrid x Manchester United, naturalmente), Alex Ferguson deve estar aflito com a fraquíssima atuação diante do limitado Fulham. Preocupa-o, também, a volúpia com que o ex-pupilo Cristiano Ronaldo irá para cima de uma defesa que, nesta temporada, tem se revelado um tanto frágil. Mas há algo que conforta sir Alex, e não estamos falando da capacidade nem da experiência do ótimo duo Rooney / Van Persie. Tampouco se trata do fato de o Man Utd jogar a segunda partida em Old Trafford. O alento de Ferguson consiste na probabilíssima ausência, em ambos os duelos, de alguém que, num passado nem tão distante assim, derrubou implacavelmente a sua fortaleza, fazendo dois fantásticos gols em Manchester e mais um em Milão.
 
            O ano era 2007, e o demolidor em questão era Kaká, que, meses depois da semifinal de Champions League contra a equipe de Ferguson, seria eleito o melhor jogador do mundo. Naquela edição da copa continental − da qual foi artilheiro, com 10 gols −, Kaká já fizera um golaço contra o Celtic, conduzindo o Milan às quartas. E voltaria a ser decisivo na final, construindo uns ¾ do tento de Inzaghi, o segundo da vitória de 2 a 1 sobre o Liverpool. Revanche da decisão de 2005, em Istambul, na qual, diga-se de passagem, Kaká foi o melhor do primeiro tempo arrasador do Milan. O assombroso lançamento para um dos gols de Hernán Crespo está, tal como o rush que provocou a estrambótica colisão de defensores do Manchester United em 2007, no numeroso rol de grandiosas jogadas de Kaká na mais importante competição clubística do planeta.
 
            Ninguém poderia prever que, seis anos depois, um jogador desse naipe, aparentemente em boas condições atléticas (recentes aparições na seleção brasileira o atestam), estaria encostado numa interminável suplência. Nas duas últimas temporadas, o Real Madrid abdicou, em etapas bem avançadas da Champions League, de um craque talhado para batalhas intensas e cruentas. Não há explicação técnica para a predileção por Di María, Modric, Benzema ou Higuaín, principalmente em situações extremas. Nem o ótimo Özil justifica um Kaká preterido. Poderia haver algum componente físico envolvido; os cinco concorrentes, afinal, são mais jovens e têm jogado com frequência maior; no entanto, como adquirir ritmo de jogo se, com a liga nacional perdida e com a vaga na próxima Champions League praticamente assegurada, o técnico não o escala nem contra o Granada?
 
            Não é novidade que, por trás desse desprezo, há muito mais do que meras opções táticas. Matérias como a do jornal El País levantaram suspeitas sobre a isenção de Mourinho na hora de selecionar quem vai a campo. Caso a influência do poderoso empresário Jorge Mendes – agente de Mourinho e de vários jogadores do time merengue – realmente interfira na relação entre o treinador lusitano e seus comandados, como afirma o pai de Kaká na referida reportagem, a subutilização de Kaká entra numa seara nebulosa e repulsiva. Prefiro acreditar em incompatibilidade de gênios, fogueira de vaidades, implicância tacanha, qualquer fator extracampo verossímil que combine com o egocentrismo de Mourinho e afaste a teoria conspiratória. Porque esta, se comprovada, poderia resultar até em constrangimentos para Scolari, cujas negociações no exterior são conduzidas por Jorge Mendes. Como se sabe, Kaká não foi convocado para o amistoso contra a Inglaterra, mesmo tendo jogado muito bem nas últimas partidas da seleção em 2012. Suas atuações sob a batuta de Mano Menezes geraram, inclusive, embaraço para Mourinho, já que o óbvio ficou mais ululante: Kaká não é um traste. 

            O tratamento a ele dispensado, porém, tem sido esse. Não me recordo de outro boicote tão absurdo, que tenha subtraído tanto tempo de jogo de um craque. É uma pena, por exemplo, que, nos confrontos entre Real e Barcelona dos últimos tempos, muitos deles épicos, Kaká não tenha recebido grandes oportunidades. Enquanto Messi e Cristiano Ronaldo puderam aproveitar um período mágico dessa rivalidade, ao meia-atacante brasileiro essa chance foi negada. E ele não foi a única vítima dessa privação – quem aprecia futebol há de ter sentido sua falta. Quem viu Milan 3x0 Manchester United, jogo de volta das semifinais da Champions League 2006/7, sabe do que estou falando. Ferguson estava ali, bem perto, e sabe muito bem. Mas não está sentindo falta alguma.

           

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cristóvão, PDA 88


            Em dezembro de 1987, comprei meu primeiro Jornal dos Sports. À época eu não sabia, mas a caminhada do moleque de 11 anos, por iniciativa própria, até a banca do Seu Lupércio, naquela distante manhã nublada, era um momento histórico, o início de um contato mais profundo entre o pequeno torcedor e a imprensa esportiva escrita. Eu já tinha certa intimidade com o rádio (José Carlos Araújo narrando o gol de Tita na final do Carioca de 87, um marco...), mas com os periódicos a proximidade começava ali. Naquela edição do velho jornal cor-de-rosa, alguns jornalistas elegiam a seleção JS do campeonato brasileiro daquele ano, a famosa Copa União. Aquilo despertou em mim alguma espécie de fascínio, que até hoje cultivo. Resolvi que também eu escalaria um onze ideal da competição, tarefa que estendi a todos os Brasileirões que acompanhei posteriormente.

            Um trabalho solitário, compartilhado durante anos com quase ninguém. Talvez eu tenha confidenciado algo ao Fábio, grande amigo de infância. Ou ao Leo, meu primo, que, avesso a futebol, acusava-me de decorar o conteúdo das edições de Placar só para ficar exibindo conhecimentos futebolísticos depois. Mas, ainda que eu tenha revelado algo a eles, não dividi o trabalho. Minucioso trabalho, diga-se. Cheguei ao requinte aparentemente doentio de dar um nome ao “prêmio” ignorado por toda a humanidade. Se a Placar, como eu descobriria poucos meses depois daquele verão 87/88, tinha a sua Bola de Prata, eu teria o PDA. Prêmio Danilo Alvim.

            Mas por que cargas d’água Danilo Alvim? O leitor deste blog há de conhecê-lo. Trata-se do Príncipe, center-half do Expresso da Vitória e titular na Copa de 1950. Eu já lera a respeito da nobreza de sua estirpe e achei que, com seu nome, o “cobiçado laurel” ganhava peso.

            Como em 87 a ideia surgiu somente depois da decisão do certame nacional, foi em 88 que as escolhas do PDA passaram a ser frutos de observações mais detidas ao longo de todo o campeonato. A essa altura, eu já me tornara um ávido leitor de Placar, e era natural que as notas dadas pela revista aos concorrentes da Bola de Prata influenciassem os meus conceitos pré-adolescentes, numa época muito anterior à onisciência do PFC. No entanto, eu apreciava manter a independência do prêmio por meio de algumas firmes discordâncias. Por isso, se endossei a Placar na zaga, por exemplo (Aguirregaray, do Inter, e Pereira do Bahia), dela me desviei nas pontas (Robertinho e Edivaldo nos lugares de Vivinho e Zinho!). Uma das outras diferenças entre as minhas opções e as da Placar residiu no meio-campo: eu escalei Cristóvão (Grêmio) na cabeça-de-área, posição que teve Paulo Rodrigues (Bahia) como Bola de Prata.

            Na verdade, Cristóvão jogava como segundo homem numa região central gremista habitada ainda por Bonamigo e Cuca. Mas, como eu não queria abdicar de Geovani, recuei Cristóvão para o posto de volante. O meia do tricolor gaúcho também não podia ficar de fora – eu me convencera disso ao assistir na TV a Flamengo 0x1 Grêmio, pelas quartas-de-final, no início de 1989 (sim, o Brasileirão de 88 terminou no ano seguinte). Elegante, clarividente e operário, naquela noite Cristóvão se multiplicou com leveza e agilidade no gramado do Maracanã. Uma atuação que ajudou o garoto de 12 anos a moldar sua definição de meio-campista.

            O Grêmio tombaria nas semifinais para o maior rival, naquele que ficaria conhecido como o “Grenal do século”, mas a impressão que Cristóvão me deixara nas quartas garantiu-lhe uma vaga no escrete do PDA. Sebastião Lazaroni, então técnico da seleção, também deve ter gostado das performances do meia, já que o convocaria, poucos meses depois, para a Copa América.

            Depois da passagem pela Portuguesa, já em fim da carreira, Cristóvão sumiu do meu modesto mapa. Eu só voltaria a ouvir falar dele no fim de julho de 2011, dias depois do grave problema médico de que Ricardo Gomes se acometera. Eu estava na loja de ferragens do portuga Luís, point de notícias cruzmaltinas mais férvido que sites especializados. Angustiado, indaguei:

            − E quem vai entrar no lugar do Ricardo, por enquanto?

            − É o auxiliar dele, o Cristóvão − respondeu o filho do lusitano −, um ex-jogador aí, acho que do Fluminense...

            − Ah, sei... Jogou no Grêmio, né?

            De fato, era ele, o volante improvisado do PDA 88. Simples, discreto, sereno, salário bem menor que os dos figurões do ofício, Cristóvão foi aplacando minha desconfiança inicial. E fui reconhecendo, na desenvoltura e na lucidez peculiares à sua forma de se expressar, a mesma habilidade, a mesma inteligência que eu vira pela TV, num Flamengo x Grêmio do passado.

            Com Cristóvão, o Vasco chegou pela primeira vez entre os cinco primeiros do Brasileirão neste século. Com Cristóvão, o Vasco chegou às semifinais da Sul-Americana, mesmo estando muito envolvido com o Brasileiro. Com Cristóvão, o Vasco fez uma ótima Libertadores, em seu retorno à competição após onze longos anos. Com Cristóvão, o Vasco se mantém entre os quatro primeiros do Brasileiro 2012, mesmo depois das terríveis perdas de Rômulo, Allan e, principalmente, Diego Souza e Fágner. O vascaíno já tem, portanto, motivos para acreditar que, com Cristóvão, o Vasco pode continuar disputando coisas grandes. É claro que a exasperação com uma ou outra mania (uma leve retranquite, Diego Rosa etc) sempre vai haver, isso é comuníssimo no comportamento da torcida. Mas xingar recorrentemente um técnico que vem, há quase um ano, contornando problemas e levando o Vasco para cima parece injustificável.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

De medalhistas a medalhões*


A seleção olímpica de 1988 jogou um futebol agradável de se ver e transformou alguns jogadores em ídolos nacionais


Em 1988, o futuro do futebol brasileiro era uma interrogação. O ocaso da geração de Zico, Sócrates e Falcão parecia indicar que os anos sem título mundial se multiplicariam. A bagunça do início do campeonato brasileiro daquele ano – alguns clubes contestaram o regulamento, que previa pênaltis em caso de empate – completava o cenário desolador. Era necessário que algo diferente e empolgante acontecesse. E aconteceu.

Sob o comando de Carlos Alberto Silva, a seleção olímpica ganhou a medalha de prata em Seul, praticando um futebol capaz de provocar, no Brasil, um entusiasmo equiparável ao de uma Copa do Mundo. E não era fogo de palha, não – apagada a pira de Seul, a chama daquela nova geração permaneceria viva, atingindo a temperatura máxima na final da Copa de 1994. Taffarel, Jorginho, Bebeto, Romário e Mazinho, que enfrentaram a Itália de Baggio em Los Angeles, tinham estado seis anos antes em Seul.

A qualidade desses jogadores explica, em parte, a espontânea e calorosa adesão popular à torcida pelo time de 1988. A outra parte da explicação fica por conta do contexto da época. Todos os integrantes da equipe defendiam, no primeiro semestre de 1988 (a Olimpíada começou em setembro), clubes brasileiros, o que facilitava a empatia. Além disso, não havia limite de idade para os convocados, portanto o time não se parecia tanto com uma “seleção de novos” quanto em outras Olimpíadas. Não ter participado de Mundiais era o único pré-requisito para ir aos Jogos.

Outro dado que talvez ajude a esclarecer por que tanta gente madrugou naquele já distante setembro tem a ver com a política. A promulgação da nova Constituição brasileira ocorreria quatro dias depois da decisão do futebol olímpico. A primeira eleição presidencial direta pós-ditadura se aproximava. Respiravam-se ares de redemocratização e esperança. Cada gol de Romário em Seul era comemorado no Brasil com uma inocência que, hoje, parece perdida.

Era outro tempo, sem dúvida. Um tempo em que reunir a seleção por quase três meses era possível. Entre amistosos e torneios, o time olímpico disputou doze partidas em sua longa e caótica preparação, que começou na Austrália e passou por Europa e Estados Unidos, antes de chegar à Coreia do Sul. Nesse meio tempo, o técnico Carlos Alberto Silva reclamou da escassez de informações sobre as seleções que o Brasil encararia na primeira fase da Olimpíada. A muito custo, ele havia conseguido, na Áustria, uma fita da Iugoslávia, mas sua transcodificação custava muito caro. Vinte anos depois, o problema tem cara de pré-história.

Mas nem tudo está tão diferente. A cessão de jogadores que atuam no exterior já era complicada. Valdo e Ricardo Gomes não foram liberados pelo Benfica, que exigiu garantias financeiras com as quais a CBF não quis arcar. A distância entre o futebol e as outras modalidades olímpicas também já existia – o Brasil disputou a primeira fase na cidade de Taejon (onde, segundo o ex-jogador Neto, comeu-se muito cachorro), e houve jogos das demais chaves em Taegu, Pusan e Kwangju, enquanto todos os outros esportes se fixaram em Seul.


Os “pratagonistas” do time


“Ele nunca soltava a bola errado”, lembra o técnico Carlos Alberto Silva. “Ele era o cimento da equipe”, metaforiza o preparador físico Bebeto de Oliveira. Ambos estão falando de Geovani, o capitão do time, que não chegaria a disputar nenhuma Copa, mas que, em 1988, desfrutou do status de maior craque do futebol brasileiro. Autor do gol que eliminou a Argentina nas quartas-de-final, o habilidoso meia tomou o segundo cartão amarelo na semifinal diante da Alemanha e desfalcou o Brasil na decisão contra a URSS, tal como o cabeça-de-área Ademir. “A ausência desses dois titulares foi crucial”, comenta Carlos A. Silva. “Tínhamos muito pouco tempo para treinar uma nova formação; o meio-campo perdeu um pouco a pegada”, arremata o treinador.

Se Geovani era o pilar do meio, atrás esse papel coube a Taffarel. “Existia um tabu de que goleiro só servia para a seleção depois dos 26 anos. Ali se consagrou um com 19”, diz o técnico, subtraindo três anos da verdadeira idade de Taffarel em 1988. O gentil equívoco talvez tenha sido uma inconsciente retribuição aos três pênaltis defendidos (um no tempo normal e dois após a prorrogação) na partida mais difícil e emocionante da campanha, frente à Alemanha de Hässler e Klinsmann.

Além de Taffarel, sobressaiu na defesa o zagueiro André Cruz, que completou 20 anos no dia da vitória sobre a Austrália, válida pela primeira fase. Nessa partida, assim como na seguinte, contra a forte Iugoslávia, Cruz atuou improvisado na lateral-esquerda. E foi dali que, diante dos iugoslavos, munidos de Katanec, Stojkovic e Suker, o ponte-pretano anotou um espetacular gol de falta, abrindo o marcador. Sua presença no torneio só não foi impecável devido ao deslize que ofereceu a Savichev uma clara chance de fazer 2 a 1 na prorrogação da final. O atacante soviético aproveitou bem, encobrindo Taffarel.

Na visão de Neto, o posto de destaque individual brasileiro em Seul fica dividido entre o loirinho gaúcho e um certo tampinha carioca, que fez sete gols na competição e despertou a cobiça de clubes europeus. “Romário é o melhor de todos os tempos, depois de Pelé”, opina o comentarista da TV Bandeirantes. Bebeto de Oliveira ressalta uma característica que o Romário mais maduro perderia: “O grande craque de anos depois não se comparava àquele menino, com aquela velocidade fantástica”.

Com tantos aspirantes a estrela, a vaidade atrapalhava? “Não, o ambiente era sensacional, embora eu não acredite muito nesse negócio de união”, avalia Neto, que via Andrade, o mais experiente do grupo, como um ídolo: “Eu tinha até vergonha de falar com ele”, conta. O volante flamenguista acabara de ser vendido ao futebol da Europa, destino comum a grande parte dos que foram aos Jogos Olímpicos de 88. Comparado aos padrões atuais, o êxodo foi tímido e lento, mas, até aquele desfecho de anos 80, não tinha havido nada igual.

Alguns medalhistas, como Andrade e Geovani, não tiveram sucesso no exterior, e outros bons jogadores acabaram não se firmando como figurinhas carimbadas, casos do zagueiro Batista, do meia Mílton e do atacante Careca. O saldo geral da geração Seul, porém, foi bastante positivo e confirmou o valor do trabalho de renovação desenvolvido por Carlos Alberto Silva. Só ficou faltando o ouro. O ponta João Paulo, que entrou no lugar de Bebeto durante a final, resume o que passou pela sua cabeça no pódio: “A sorte não ajudou. Tínhamos um time superior, pressionamos, perdemos gol. Na hora, foi uma grande decepção. Mas hoje a gente vê que a medalha de prata representou muito”.

*Escrevi esta matéria para a Revista Trivela, edição de agosto de 2008. A versão da revista está um pouco modificada e mais curta, devido à edição.