Em 2008, escrevi para a Revista Trivela uma matéria a respeito do título vascaíno no Sul-Americano de 1948. Li agora, no site da Espn, que o Vasco vai pleitear a condição de primeiro campeão da Libertadores, defendendo que o certame embrionário lhe era equivalente. Abaixo, o texto da reportagem, que saiu na edição de março de 2008.
Nos trilhos da Libertadores
Há 60 anos, o Expresso da Vitória conquistou seu mais importante título
“A façanha do Vasco foi a maior jamais realizada por clube brasileiro”. Com essa frase, Mário Filho iniciou sua coluna no Jornal dos Sports de 16 de março na 1948. Na antevéspera, o time cruzmaltino saíra do Estádio Nacional de Santiago com um enorme condor de bronze, que representava a conquista do Campeonato Sul-Americano de Campeões. A ave escolhida para dar forma ao troféu simboliza a liberdade do continente americano, mais tarde lembrada, também, pelo nome da prestigiosa competição que recolocaria em prática a grande sacada do final dos anos 40.
Em 1996, a Conmebol reconheceu a importância do título do Vasco, que, no ano seguinte, pôde jogar a Supercopa Libertadores. Admitir a equivalência entre o certame do Chile e a Libertadores não foi um exagero da entidade. Descontados os limites que a época impunha – em alguns países, ainda não havia campeonatos de abrangência nacional –, a seleção dos participantes foi bem criteriosa, mais até do que na Europa, cuja primeira Copa dos Campeões definiu seus disputantes sem levar em conta o desempenho no ano anterior.
A presença de representantes de sete países foi importante para diferenciar o campeonato de Santiago dos muitos desafios, quadrangulares e torneios que, à época, fervilhavam na América do Sul. Fazia muitos anos, por exemplo, que os campeões do Uruguai e da Argentina duelavam pelo título “rioplatense”. Em 1947, a chamada Copa do Atlântico reunira times brasileiros, argentinos e uruguaios. Poucos dias antes de o Vasco chegar ao Chile, o Flamengo esteve lá jogando amistosos. No mesmo período, o River Plate visitou a capital paulista, onde perdeu para o Corinthians, empatou com o São Paulo e venceu o Palmeiras.
Apesar da campanha irregular nesse tour, “La Maquina” de Moreno, Labruna e Di Stéfano manteve sua aura quase intacta e chegou ao Campeonato Sul-Americano ostentando a insígnia de favorito. Atribuiu-se a medíocre performance em solo paulistano às fortes chuvas que haviam enlameado a grama e prejudicado o fino toque de bola portenho.
De azarão a favorito
Às seis horas da manhã do dia 7 de fevereiro, o Vasco decolava rumo a Santiago. O time não ia curtir a folia carioca, embora merecesse: no ano anterior, havia conquistado o título local de forma invicta. E sem Ademir de Menezes, que estava no Fluminense. Mas, naquele sábado de carnaval, o filho pródigo já havia retornado ao lar. Ele e mais dezessete integrantes do Expresso da Vitória partiam para o Chile na condição de figurantes. Afinal, nenhum time brasileiro, nem mesmo a seleção, havia vencido um campeonato em território estrangeiro.
Robinson Alvarez, presidente do Colo Colo e idealizador da competição, pensava assim. Por isso, a tabela agendou, inicialmente, os cruzamentos entre River, Colo Colo e Nacional para as últimas rodadas. Esperava-se, desse jeito, garantir o interesse do público até o final. No entanto, em seu segundo jogo, o time treinado por Flávio Costa bateu o Nacional por 4 a 1, obrigando Alvarez a rever os seus conceitos. Após certa resistência a alterações no cronograma, o Vasco acabou cedendo. Seu último compromisso passou a ser contra o River Plate, no dia 14 de março.
O caminho para o título
A goleada sobre o campeão uruguaio foi a única partida de Ademir no certame. Um chute do beque Rodolfo Pini provocou uma fratura no pé direito do “Queixada”, que regressou ao Rio para iniciar a recuperação. Embora o desfalque fosse preocupante, o time continuou rendendo bem. “Havia ótimos reservas” – lembra o jornalista Luiz Mendes, que acompanhou a competição – “Desde 1944, o Vasco era o melhor time do Brasil”.
Pouco a pouco, Flavio Costa foi encontrando a formação ideal. O zagueiro Wilson, que, em janeiro, ainda defendia os juvenis, surpreendeu com atuações muito seguras. O mesmo não sucedeu com o jovem Dimas, artilheiro do carioca de 47, que parecia meio preso. O técnico, então, optou por deslocar Friaça da ponta direita para o centro do ataque, onde ele teve atuações destacadas. “Eu tinha um chute muito forte”, conta o ex-jogador, morando hoje em Porciúncula (RJ), sua cidade natal.
Um dos quatro gols de Friaça no campeonato foi marcado no empate com o Colo Colo, que alinhou alguns jogadores de outros times chilenos, burlando o regulamento. Esse não foi o único caso de armação do certame. A arbitragem da batalha entre Vasco e River, a cargo do uruguaio Nobel Valentini, foi muito contestada pelos vascaínos e pela imprensa, principalmente por conta do gol anulado de Chico, em suposto impedimento.
Nessa partida decisiva, o River necessitava da vitória. Foi o adversário, porém, que tomou as rédeas do confronto: “O Vasco da Gama, que devia ser o vencedor, não acusou pontos débeis em suas diferentes linhas, e realizou ontem sua melhor partida no campeonato”, apontou o jornal La Nación. Di Stéfano, eficazmente marcado por Wilson, só veio a tocar na bola aos 26 minutos. Barbosa pegou pênalti cobrado por Labruna, segurando o 0x0 e coroando sua bela passagem por Santiago.
No Rio de Janeiro, uma multidão foi recepcionar o Vasco. Desfilando em carros abertos, rumo a São Januário, os heróis fizeram, finalmente, o seu carnaval. Na verdade, apenas alguns deles, porque outros tiveram de ir diretamente para Montevidéu, onde a seleção jogaria a Copa Rio Branco. O Vasco era a base do escrete nacional e o campeão dos campeões sul-americanos. Por isso, como diz o cântico mais ouvido em São Januário atualmente, uma das grandes glórias do Gigante da Colina “é relembrar o Expresso da Vitória”.
Descontinuidade
Além de espetáculo esportivo, o Campeonato Sul-americano de Campeões foi um movimentado evento social. O Colo Colo não mediu esforços para dar ares de festa à competição, promovendo homenagens e confraternizações. Antes de a bola rolar, houve concurso de cartazes e sorteio de viagens para quem comprasse ingresso de tribuna especial. Na cerimônia de abertura, as delegações desfilaram pelo campo do Estádio Nacional, entoaram os hinos de seus países e fizeram o juramento de “aceitar as derrotas com esportividade”.
A promessa, contudo, não foi cumprida à risca. O jogo Colo Colo 3x2 Nacional ilustra bem isso. Enquanto perdia por 2 a 1, a equipe chilena atormentou o árbitro brasileiro Alberto da Gama Malcher, obrigando-o a interromper a partida e descer para o vestiário. Malcher só retomou seu serviço depois do bizarro apelo do presidente Robinson Alvarez, de microfone em punho: “Peço ao público que faça o sacrifício de ver atuando novamente este juiz”. Dias depois, Alvarez se retratou e até deu uma medalha a Malcher, mas o mal já estava feito.
Antes do episódio, o Nacional ainda brigava pela taça. Seu descontentamento com o campeonato só não foi maior do que o do River Plate, que se sujeitou a um arranhão na lataria da “Máquina”. O próprio Vasco, embora campeão, não engolira os cambalachos do Colo Colo na inscrição de jogadores. Essa soma de insatisfações atrapalhou os planos de Robinson Alvarez, que não concretizou o desejo de organizar outra edição do torneio. Mas a semente de uma frondosa árvore já estava plantada. Hoje, em seu galho mais antigo, um condor move as asas.
Clubes que participaram da competição
Vasco da Gama (BRA)
Como chegou à competição
Campeão carioca de 1947
Time-base
Barbosa, Augusto e Wilson; Eli, Danilo e Jorge; Djalma, Maneca, Friaça, Ismael e Chico
Características
Individualmente muito forte, o time crescia quando diante de desafios mais difíceis. Não por acaso, suas melhores atuações foram contra o segundo, o terceiro e o quarto colocados
Resultado
Campeão
Situação atual
Sem títulos há cinco anos e fora da Libertadores desde 2001
River Plate (ARG)
Como chegou à competição
Campeão argentino de 1947
Time-base
Grisetti, Vaghi e Rodríguez; Yácono, Rossi e Ramos; Reyes, Moreno, Di Stéfano, Labruna e Loustau
Características
Quase todos os jogadores do time vinham das categorias de base do River. Sua escola era a do jogo coletivo, baseado na manutenção da posse de bola e em triangulações envolventes
Resultado
Vice-campeão
Situação atual
Não consegue ter o mesmo sucesso internacional do rival Boca
Nacional (URU)
Como chegou à competição
Campeão uruguaio de 1947
Time-base
Paz, Raúl Pini e Tejera; Santamaría, Rodolfo Pini e Cajiga; Castro, Gómez, Atilio García, Gambetta e Orlandi
Características
A dupla Walter Gómez/Atílio García mostrava muita eficiência, porém a zaga, segundo os críticos da época, era lenta e pesada. Tejera e Gambetta enfrentariam o Brasil em 1950
Resultado
Terceiro lugar
Situação atual
Tricampeão da Libertadores, perdeu espaço no cenário continental
Municipal (PER)
Como chegou à competição
Vice-campeão peruano de 1947 (o campeão, Atlético Chalaco, recusou o convite)
Time-base
Suárez, Cavadas e Perales; Colunga, Castillo e Celi; Hurtado, Mosquera, Drago, Guzmán e Torres
Características
Baixinhos e habilidosos, os “Tres Gatitos” Mosquera, Drago e Guzmán formavam o melhor núcleo da equipe, que tocava bem a bola, mas pecava pela falta de objetividade
Resultado
Quarto lugar
Situação atual
Caiu novamente para a segunda divisão do futebol peruano
Colo Colo (CHI)
Como chegou à competição
Campeão chileno de 1947
Time-base
Sabaj, Machuca e Pino; Urroz, Miranda e Muñoz; Aranda, Farias, Dominguez, Peñaloza e López
Resultado
Quinto lugar
Características
O time montado pelo ex-atacante Enrique Sorrel sentiu a pressão de jogar em casa e sofreu com a ausência do goleiro Misael Escuti, contundido
Situação atual
Vive boa fase e sonha em ganhar a Libertadores outra vez (já o fez em 1991)
Litoral (BOL)
Como chegou à competição
Campeão de La Paz em 1947
Time-base
Gafuri, Araoz e Bustamante; Ibañez, Valencia e Vargas; Sandoval, Rodríguez, Caparelli, Gutierrez e Orgaz
Características
Lutador e persistente, o limitado time do Litoral corria bastante. Muitos de seus jogadores defenderam a Bolívia na Copa do Mundo de 1950
Resultado
Sexto lugar
Situação atual
O período áureo do clube foi mesmo o fim dos anos 40. Depois, perambulou por divisões inferiores, até desistir de disputar qualquer campeonato, em 2003
Emelec (EQU)
Como chegou à competição
Convite. Vale frisar, porém, que, em 1946, o clube venceu o campeonato de Guayaquil e que o ano de 1947 foi atípico para a cidade, pois lá se realizou a Copa América
Time-base
Arias, Henríquez e Zurita; Riveros, Alvarez e Ortiz; Albornoz, Jiménez, Alcívar, Yepez e Mendoza
Características
Contava com jogadores rápidos, mas não ia muito além disso. Os destaques eram Henríquez e Alvarez, que chegaram a atuar na liga pirata colombiana
Resultado
Último lugar
Situação atual
Ainda é um dos clubes mais importantes do Equador